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https://www.jt.estadao.com.br/editorias/02/04/13/artigos001.html

 

 

O pior inimigo de Israel

Da mesma forma que as organizações pacifistas em Israel praticamente foram silenciadas pela escalada de atentados suicidas palestinos contra a população civil do país – que deixaram pelo menos 400 mortos e 3.500 feridos, desde a posse do governo Sharon, em fevereiro do ano passado -, a brutal retaliação levada a cabo pelo exército israelense nas cidades da Cisjordânia propagou pela Internet uma leva de protestos originários de muitas partes do mundo, a começar de Israel, dos Estados Unidos e da União Européia, e ainda de países como o Brasil.

 

Essas manifestações, que se traduzem em relatos, análises e abaixo-assinados, condenam as ações criminosas que serviram de pretexto para a invasão da Cisjordânia; denunciam as matanças indiscriminadas de civis palestinos – o “terrorismo de Estado” do general Sharon; apelam à opinião pública internacional para que façam cessar as atrocidades e a destruição material que as acompanha; expõem os propósitos colonialistas da ultradireita no poder em Israel (quando não os seus intuitos de “limpeza étnica”); e, enfim, discutem as soluções para o conflito no Oriente Médio.

 

A movimentação dos pacifistas, que inclui atos públicos de repúdio a Sharon, como o que reuniu esta semana em Tel-Aviv cerca de 20 mil pessoas, representa um contraponto cada vez mais forte ao apoio que o primeiro-ministro continua a receber da maioria dos israelenses – prova da eficiência do serviço executado pelos partidários do quanto pior, melhor, os extremistas islâmicos que se fazem explodir juntamente com o maior número possível de inocentes para dizer a Israel que, enquanto existir, não conhecerá nem a paz nem a segurança.

 

Enfrentando muitas vezes o desprezo e a hostilidade de sua própria gente, os ativistas que combatem com a arma das idéias e da moralidade a selvageria em que degenerou mais uma vez o confronto entre árabes e judeus – ambos vítimas e responsáveis por um círculo infernal de ódio e impulsos aniquiladores que desafiam a imaginação – resgatam os princípios elementares da decência e da tolerância sem os quais o homem é apenas o lobo do homem.

 

Um exemplo entre tantos dessa admirável expressão de integridade ética e intelectual é o texto intitulado “Manifesto judaico: Sharon é o pior inimigo de Israel”, redigido por dois judeus suecos – uma espécie rara, por sinal.

 

São eles a cineasta Maj Wechselman e o pediatra Henry Ascher. O documento, a ser entregue ao secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, está na Internet, no site www.jipf.nu/, e em poucos dias recebeu mais de mil adesões em cerca de 30 países. Leitores de quaisquer raças e credos, ou de nenhum, talvez saiam enriquecidos ao tomar conhecimento dos seus principais trechos.

 

“Muitos de nós que iniciamos e assinamos este manifesto perdemos parentes durante a 2ª Guerra Mundial. Eles morreram em campos de concentração ou pereceram nas valas comuns da Europa Oriental. Muitas vezes tiveram de cavar as suas próprias sepulturas antes de nelas serem lançados. Outros de nós somos sobreviventes da perseguição nazista.

 

Repudiamos por completo a pretensão de Ariel Sharon de falar em nome dos judeus do mundo. Ele certamente não fala no nosso nome. A declaração de guerra de Israel aos palestinos pode se transformar facilmente em um conflito regional de grandes proporções. Israel tem armas nucleares e há poucas dúvidas de que Sharon esteja plenamente preparado para usá-las. No nosso entender, ele quase sozinho levou o Oriente Médio a ponto do desastre iminente. Sharon é a maior ameaça ao povo de Israel e aos judeus do mundo inteiro.

 

A proposta saudita adotada pela Liga Árabe deu a Sharon uma oportunidade histórica singular de fazer a paz. A sua única resposta foi a violência impiedosa. Ele é incapaz de concluir acordos ou forjar compromissos. Uma solução pacífica será impossível enquanto estiver no poder. Jamais em sua carreira ele fez outra coisa a não ser recorrer às mais duras medidas militares concebíveis.

 

Em menos de dois anos, conseguiu torpedear os acordos que exigiram de israelenses e palestinos longos anos de paciente acomodação. Para ele, Israel está acima da lei internacional. Isso o coloca na companhia dos mais cruéis e desprezíveis ditadores do mundo. Sob as suas ordens, ambulâncias e hospitais são vítimas de emboscadas, médicos são fuzilados e mulheres grávidas são deixadas à morte ou para dar à luz nos postos de controle de Israel.

 

Nossa alternativa a Sharon é a tradição judaica de humanismo e de fé no futuro. Exigimos a imediata e incondicional retirada de Israel dos territórios ocupados, que uma força internacional de paz seja enviada à região e que Israel se submeta à lei internacional e declare imediatamente a sua disposição de negociar a paz com base em todas as resoluções das Nações Unidas.”

 

Luiz Weis

 

 

 

Luiz Weis é jornalista e comentarista político www.werbo.com.br e-mail: luizweis@uol.com.br